22/11/2012

O Cachorro do Vizinho – Eu Mato Aquele Demônio

– Jhonny, abre essa porta! – Meu pai grita quase arrombando a porta do meu quarto. Eu ainda estou com muito medo para sair da cama e abrir a porta, estou tremendo e chorando igual a quando eu tinha seis anos e acordava com medo da “Lacraia dos Olhos Verdes” que meu pai inventou para me fazer dormir mais cedo.

Meu pai consegue arrombar a porta e me vê encolhido na cabeceira da cama ainda tremendo e repetindo como um mantra:

– Eu mato, eu mato, eu mato, eu mato...

– O que aconteceu Johnny? O que você quer matar? – Meu pai pergunta.

– Aquele demônio, eu vou matar o Hades!

Só agora minha mãe consegue entrar no quarto, vejo que ela conseguiu ficar mais desesperada do que eu, só pelo tom de voz dela já dá para notar.

– Por que esse desespero todo meu filho? – Diz minha mãe sentando na cama e me abraçando.

– Ele tava aqui, na minha cama, a baba dele tava pingando no meu rosto, aquele demônio tava aqui!

Meu pai fica procurando o Hades pelo meu quarto, mas não acha nada. Minha mãe pergunta:

– Achou o cachorro Helinho?

– Não vi nenhum cachorro aqui. – Ele responde minha mãe e depois pergunta para mim. – Jhonny, tem certeza de que você viu o cachorro?

– Mas é claro que eu tenho! Sente só o fedor da baba daquele bicho. – Eu respondo um pouco mais calmo.

Meu pai olha para minha mãe com uma cara de “pega lá o remédio” e ela sai do quarto. Ela volta com o Lorazepam que o médico receitou quando eu tive o primeiro pesadelo com o cachorro.

– Eu tô falando isso já tem algum tempo, aquele véio desgraçado fez macumba pra mim, ele sabe que eu o vi dando chicotada no chão ao invés de bater no cachorro. – Falo enquanto tiro o comprimido da cartela. – Ele quer me deixar louco, ele sabe que eu tenho medo daquele bicho.

– Boa noite Jhonny. – Dizem meu pai e minha mãe quase em uníssono. Eu respondo e rapidamente pego no sono, e dessa vez sem nenhum pesadelo.

...

Ontem foi meu último dia de trabalho antes das férias, e eu decidi viajar para ficar longe da presença desse cachorro. Hoje me sinto como se um trator tivesse passado por cima de mim, e o “pesadelo real” fica cada vez mais nebuloso em minha mente, mas ainda é muito assustador pensar nele. O bicho continua uivando estranhamente e pertubando a concentração da vizinhança. Gelsinho acabou de sair do quintal dele e está vindo para o meu portão, as cicatrizes deixadas pelo Hades ainda estão bem destacadas mesmo depois de seis anos do incidente.

– Você também viu aquilo de madrugada? – Gelsinho me pergunta com um tom medroso. Ele é quase um ano mais velho que eu, mas o medo que ele tem o faz parecer um ano mais novo que eu.

– O demônio? – Respondo com outra pergunta.

– É. Eu tive um pesadelo com ele essa noite.

Gelsinho é um pouco mais baixo que eu e está um pouco acima do peso, ele tem uma voz engraçada que toda hora muda, devido a sua voz ter começado a engrossar muito tarde.

– Porra, esse bicho apareceu no meu quarto e ainda babou em mim, tive de novo uma daquelas crises e meus pais mais uma vez acharam que era pesadelo e me fizeram tomar um Lorazepam.

– Cara, eu tô começando a achar que eu tô ficando maluco mesmo, aliás, nós dois estamos ficando malucos. – Responde Gelsinho rodando o dedo em torno do ouvido.

– Quer saber? A melhor coisa que a gente faz ir pra longe, e se afastar um pouco desse pandemônio que nossa vida virou depois daquele pesadelo, e aposto que o seu Tonho tem alguma coisa a ver com isso.

– Melhor mesmo. Mas agora eu tenho que ir, inté mais tarde.

– Valeu! Inté mais.

Gelsinho vai embora e eu fico pensando se eu estou mesmo vendo essas coisas, ou se eu estou ficando doido. Prefiro a primeira opção, mas acho que essa viagem vai me fazer bem, espero não ter que tomar Lorazepam de novo.

– Mãe! Cadê a câmera? – Grito do meu quarto.

– Tá dentro da gaveta do seu criado! Carregou as pilhas? – Minha mãe responde da cozinha.

– Carreguei! – Digo enquanto abro as gavetas uma a uma.

Acho a câmera na segunda gaveta, e quando eu a ligo para testar as pilhas, ela não liga. Aperto o botão novamente e a câmera liga de um modo diferente, e quando termina de ligar, surge um vídeo que eu gravei há alguns dias no aniversário da Glória.  Mas algo diferente me chama a atenção, enquanto a Glória está dançando, eu vejo um vulto passando por ela e depois esse vulto se materializa bem na frente dela e se transforma no Hades dizendo:

– Estou te esperando.

Continua

Capítulo Seguinte: Uma Viagem Tranquila (Ou Não)
Capítulo Anterior: O Cachorro do Vizinho

Um comentário:

  1. kkkk estou t esperando... qdo pensei q ia acabar normalmente... nao tem jeito, tenho q ler o proximo capitulo.

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