– Jhonny, abre essa porta! – Meu pai grita quase arrombando
a porta do meu quarto. Eu ainda estou com muito medo para sair da cama e abrir
a porta, estou tremendo e chorando igual a quando eu tinha seis anos e acordava
com medo da “Lacraia dos Olhos Verdes” que meu pai inventou para me fazer
dormir mais cedo.
Meu pai consegue arrombar a porta e me vê encolhido na
cabeceira da cama ainda tremendo e repetindo como um mantra:
– Eu mato, eu mato, eu mato, eu mato...
– O que aconteceu Johnny? O que você quer matar? – Meu pai
pergunta.
– Aquele demônio, eu vou matar o Hades!
Só agora minha mãe consegue entrar no quarto, vejo que ela
conseguiu ficar mais desesperada do que eu, só pelo tom de voz dela já dá para
notar.
– Por que esse desespero todo meu filho? – Diz minha mãe
sentando na cama e me abraçando.
– Ele tava aqui, na minha cama, a baba dele tava pingando no
meu rosto, aquele demônio tava aqui!
Meu pai fica procurando o Hades pelo meu quarto, mas não
acha nada. Minha mãe pergunta:
– Achou o cachorro Helinho?
– Não vi nenhum cachorro aqui. – Ele responde minha mãe e
depois pergunta para mim. – Jhonny, tem certeza de que você viu o cachorro?
– Mas é claro que eu tenho! Sente só o fedor da baba daquele
bicho. – Eu respondo um pouco mais calmo.
Meu pai olha para minha mãe com uma cara de “pega lá o
remédio” e ela sai do quarto. Ela volta com o Lorazepam que o médico receitou
quando eu tive o primeiro pesadelo com o cachorro.
– Eu tô falando isso já tem algum tempo, aquele véio
desgraçado fez macumba pra mim, ele sabe que eu o vi dando chicotada no chão ao
invés de bater no cachorro. – Falo enquanto tiro o comprimido da cartela. – Ele
quer me deixar louco, ele sabe que eu tenho medo daquele bicho.
– Boa noite Jhonny. – Dizem meu pai e minha mãe quase em
uníssono. Eu respondo e rapidamente pego no sono, e dessa vez sem nenhum
pesadelo.
...
Ontem foi meu último dia de trabalho antes das férias, e eu
decidi viajar para ficar longe da presença desse cachorro. Hoje me sinto como
se um trator tivesse passado por cima de mim, e o “pesadelo real” fica cada vez
mais nebuloso em minha mente, mas ainda é muito assustador pensar nele. O bicho
continua uivando estranhamente e pertubando a concentração da vizinhança.
Gelsinho acabou de sair do quintal dele e está vindo para o meu portão, as
cicatrizes deixadas pelo Hades ainda estão bem destacadas mesmo depois de seis
anos do incidente.
– Você também viu aquilo de madrugada? – Gelsinho me
pergunta com um tom medroso. Ele é quase um ano mais velho que eu, mas o medo
que ele tem o faz parecer um ano mais novo que eu.
– O demônio? – Respondo com outra pergunta.
– É. Eu tive um pesadelo com ele essa noite.
Gelsinho é um pouco mais baixo que eu e está um pouco acima
do peso, ele tem uma voz engraçada que toda hora muda, devido a sua voz ter
começado a engrossar muito tarde.
– Porra, esse bicho apareceu no meu quarto e ainda babou em
mim, tive de novo uma daquelas crises e meus pais mais uma vez acharam que era
pesadelo e me fizeram tomar um Lorazepam.
– Cara, eu tô começando a achar que eu tô ficando maluco
mesmo, aliás, nós dois estamos ficando malucos. – Responde Gelsinho rodando o
dedo em torno do ouvido.
– Quer saber? A
melhor coisa que a gente faz ir pra longe, e se afastar um pouco desse
pandemônio que nossa vida virou depois daquele pesadelo, e aposto que o seu
Tonho tem alguma coisa a ver com isso.
– Melhor mesmo. Mas agora eu tenho que ir, inté mais tarde.
– Valeu! Inté mais.
Gelsinho vai embora e eu fico pensando se eu estou mesmo vendo
essas coisas, ou se eu estou ficando doido. Prefiro a primeira
opção, mas acho que essa viagem vai me fazer bem, espero não ter que tomar
Lorazepam de novo.
– Mãe! Cadê a câmera? – Grito do meu quarto.
– Tá dentro da gaveta do seu criado! Carregou as pilhas? –
Minha mãe responde da cozinha.
– Carreguei! – Digo enquanto abro as gavetas uma a uma.
Acho a câmera na segunda gaveta, e quando eu a ligo para
testar as pilhas, ela não liga. Aperto o botão novamente e a câmera liga de um
modo diferente, e quando termina de ligar, surge um vídeo que eu gravei há
alguns dias no aniversário da Glória. Mas algo diferente me chama a atenção,
enquanto a Glória está dançando, eu vejo um vulto passando por ela e depois
esse vulto se materializa bem na frente dela e se transforma no Hades dizendo:
– Estou te esperando.
Continua
Capítulo Seguinte: Uma Viagem Tranquila (Ou Não)
Capítulo Anterior: O Cachorro do Vizinho
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kkkk estou t esperando... qdo pensei q ia acabar normalmente... nao tem jeito, tenho q ler o proximo capitulo.
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