O ônibus chegou à rodoviária mais cedo do que eu esperava e
ainda estava de madrugada quando desembarcamos. Ainda estou assustado com a
noite anterior e não estou acreditando no que eu disse de madrugada. Eu me
lembrava de pedaços da minha discussão com Gelsinho no ônibus, mas achava que
aquilo era um sonho até o Gelsinho acordar puto da vida comigo.
– Cara, quanto de Lorazepam você tomou ontem à noite? –
Gelsinho me pergunta com um tom de voz que não dá pra distinguir se ele está
falando sério ou brincando com a minha cara. – Você se lembra do que você disse
ontem à noite?
– O que é que eu disse ontem à noite cara? – Pergunto ainda
com sono e me sentindo como se eu tivesse sido pisoteado por uma manada de
gnus.
– Deixa eu te lembrar do que você disse “Tu deve ter pegado
meu Lorazepam, pra estar viajando assim que nem eu, cara, foi só um sonho, uma
viagem, nós estamos mentalmente exaustos e não vamos voltar para o Rio.”.
– Ai cacete! Aconteceu mesmo.
– Lembrou agora?
– Lembrei, mas nós não vamos voltar pro Rio de jeito nenhum,
o quanto mais longe eu ficar daquele cachorro, melhor.
– Você eu não sei, mas eu pretendo voltar pro Rio em pouco
tempo, eu vou matar aquele cachorro assim que eu chegar lá. – Disse Gelsinho
com uma determinação que eu nunca tinha visto, mas que suspeito que seja fogo
de palha já que ele é mais medroso que eu.
–Relaxa mano, estamos de férias, vamos pelo menos esquecer
esse demônio durante esses dias depois a gente volta e vê o que vamos fazer.
– Tá bom.
Decidi ligar para a casa da minha vó quando estivesse
amanhecendo para não perturbar tão cedo. Não deu pra ficar andando pela
rodoviária por causa da bolsa do Gelsinho e tivemos que esperar parados na
plataforma de desembarque até meu tio chegar para nos buscar. Tio Mário chega pontualmente às 6h30min, nos
cumprimentamos, ele faz uma brincadeira com a bolsa do Gelsinho (todo mundo
fala alguma graça por causa dessa bolsa) e vamos para a casa da minha avó.
A casa da minha avó é bem longe da rodoviária, tanto que dá
tempo até pra tirar um cochilo na van do meu tio. Tento tirar um cochilo
rápido, mas acabo caindo no sono pesado, e como consequência desse sono pesado,
mais uma vez o Hades aparece naquela versão medonha e muito diferente da que eu
vi no espelho do banheiro.
– Não adianta fugir, mesmo você indo para Marte, eu vou
atrás de você.
Tento falar alguma coisa, mas minha voz não sai, e também não
consigo me mexer, sou praticamente uma estátua. Hades vem andando em minha
direção lambendo os lábios, e rindo loucamente com aquela risada linda de cão
dos infernos. Ele sai correndo e avança em mim, eu ainda não consigo me mexer e
nem vou conseguir mais. Ele começar a me devorar e só então minha voz sai da
garganta, e só tenho tempo de gritar:
– VOLTA PRO INFERNO DEMÔNIO!
Acordo todo suado, com meu tio me olhando de maneira cômica,
e Gelsinho com cara de quem já sabe o que aconteceu. Olho pela janela da van e
reconheço o lugar que eu tanto amo. Meu tio ainda olha para mim como se
estivesse exigindo uma explicação pra cena que eu fiz agora a pouco.
– Foi só um pesadelo tio Mário, só um pesadelo.
– Ainda bem Jhonny, já estava achando que você começou a abusar
do Lorazepam HAHAHAHAHAHA – Tio Mário comenta fazendo uma piada.
Saímos da van e minha avó vem na nossa direção, dá um abraço
no Gelsinho, que ela considera como se fosse neto dela, me dá um abraço, eu
peço a benção e ela me dá, e logo depois fala no meu ouvido:
– Preciso conversar com você com o Gelsinho urgentemente
mais tarde, espera o teu tio ir embora e depois você o chama para conversarmos
nós três a sós.
– Tá bom vó. – Respondo meio assustado com a urgência que
ela pediu.
– Pode ir lá dentro que eu preparei “aquele” café da manhã
pra vocês. – Diz minha vó dando ênfase no “aquele”. – Vocês estão muito magros,
tem que comer.
Gelsinho é o primeiro a entrar para comer, desde criança
sempre foi o mais faminto. Eu ainda fico no quintal batendo um papo com meu tio
e depois ele vai embora. Eu entro e devoro uma boa parte do café da manhã como
o Hades me devorou no pesadelo.
Enquanto eu escovo dente, ouço parte da conversa da vó
Mariana com o Gelsinho, ela diz a mesma coisa que disse pra mim, com exceção de
esperar meu tio ir embora. Ouço-a me chamar da cozinha e dizer:
– Jhonny meu filho, nós estamos indo para a sala, vem logo.
– Já estou indo.
Desço as escadas e vou correndo para a sala, escorrego no
tapete do corredor e quase caio na entrada da sala, minha avó e o Gelsinho riem
da minha “quase queda” e eu faço uma expressão de desdém. Sento no chão e minha
avó começa a falar:
– Vocês estão aqui por que estão fugindo do Hades né?
Essa pergunta me pegou de surpresa, e pelo que vejo na
expressão do Gelsinho, ele também foi pego de surpresa.
– Como que a senhora sabe desse assunto cabuloso? – Eu pergunto.
– Eu também tenho pesadelos com aquele cachorro.
– Vó, o que a senhora tem haver com essa história toda? – Gelsinho
pergunta pausadamente como se estivesse esperando a pior das respostas.
– Bom, eu vou contar uma coisa, mas que só pode ficar aqui
entre a gente, não quero que isso corra na boca do povo, tanto que quando aquele
véio maldito se mudou para lá, eu acabei me mudando para cá. Essa história já
tem mais de 40 anos, e eu me arrependo todos os dias de ter feito isso.
– O que é então vó? – Eu pergunto já desesperado para saber
o que a vó Mariana tem para contar.
– É... – Ela respira fundo procurando forças para dizer
aquilo - ... Eu traí o Altair com o Tonho e engravidei dele, e Jhonny, o bebê
que eu tive com o Tonho foi o seu pai.
Continua
Capítulo Seguinte: Buraco no Chão
Capítulo Anterior: Uma Viagem Tranquila (Ou Não)
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