– Como?! – Eu pergunto como se eu não tivesse entendido.
– Você é neto do Tonho, mas pelo amor de Deus, não conta
isso pra ninguém, já foi difícil esconder isso do Altair quando ele tava vivo,
mas seu pai não sabe e nem pode saber. – Minha vó responde quase chorando.
– Mas como pode isso vó? Aquele véio maluco sabe que o
Jhonny é neto dele? – Gelsinho pergunta calmamente, mas quase passado para o
desespero.
– Ele sabe sim, e é por isso que o maldito do cachorro dele
vem atormentando vocês.
– Mas o que eu tenho a ver com essa história toda, se nem
neto de sangue da senhora eu sou? – Gelsinho pergunta já desesperado.
– É vó. Por que o Gelsinho tá envolvido nesse rolo também? –
Eu também pergunto tentando me controlar.
– O desgraçado sabe que eu te amo como se você fosse meu
neto Gelsinho, ele está fazendo isso para me atingir e atingir vocês dois.
– E por que meu pai não está tendo esses pesadelos também?
Ele é filho do Tonho, ele também tinha que ter pesadelos com o Hades né?
– Lembra quando o Gelsinho foi atacado pelo Hades há seis
anos? Seu pai não viu, mas você viu o véio dando chicotada no chão, e do jeito
que aquele véio mexe com bruxaria, ele sabe o que você viu, e sabe que as
únicas pessoas que acreditaram quando você disse isso fomos eu e Gelsinho.
– Mas vó, o que a gente pode fazer pra acabar com essa merda
toda? – Gelsinho pergunta quase chorando.
– Há dois modos. O primeiro modo é alguém nós matar o
cachorro.
– Como você sabe que temos que matar o cachorro?
– Também tenho os mesmos pesadelos, esqueceu? E o segundo
modo é o mais fácil, mas também é aquele que vai acabar com a família, que é
falar para o seu pai que ele é filho do Tonho e depois para os seus tios, e
esse eu não vou fazer de jeito nenhum.
Um silêncio assustador se faz na casa da vó Mariana e do
nada eu ouço latidos. Pergunto se alguém ouviu os latidos, mas nem minha vó e
nem Gelsinho ouviram o latido. Os latidos começam a ficar mais altos e se
transformam em uivos, e agora minha vó e Gelsinho podem ouvi-los.
Saímos para a varanda vemos uma matilha enorme, várias
cópias do Hades em volta da casa. Então o verdadeiro Hades aparece, ele está
com corpo humano e cabeça de cachorro, mas ainda assim eu sei que ele é o
verdadeiro Hades. Ele grita bem alto:
– Ataquem!
Depois do grito, todos os cachorros em volta da casa começam
a pular para a varanda. Nós três corremos para dentro e fechamos todas as
portas e janelas. Ficamos encolhidos em um canto da sala.
Sinto um tremor no chão, olho para a vó Mariana e para o
Gelsinho e sem eu perguntar eles confirmam que também sentiram esse tremor.
Esperamos mais um pouco, e o piso treme mais uma vez. Os cachorros param de
fazer barulho lá fora e de novo se faz um silêncio, mas os tremores voltam cada
vez mais fortes e o piso da sala começa a rachar. O piso explode e vários
pedaços de concreto e cerâmica voam para todos os lados. Vários objetos da casa
da minha vó são danificados na explosão, mas nós continuamos a salvo.
Hades sai do buraco causa pela explosão guiando seu séquito
de clones famintos, alguma coisa os está segurando, pois vejo que eles estão
loucos para nos atacar, mas essa segurança dura por pouco tempo, Hades fala
alguma besteira naquela linda voz de demônio que só ele tem e os cachorros
começaram a correr na nossa direção. Três cachorros avançaram na minha vó, um
na perna, um na barriga e um no pescoço. Gelsinho teve menos sorte, um grupo de
dez cachorros avançou em cima dele enquanto o próprio Hades se encarregou de me
matar. Ele me pegou pelo pescoço, e me aproximou tanto de seu rosto que dava
para sentir seu mau hálito.
– Você não tem vergonha de ter esse bafo seu cachorro
miserável? – Incrível como eu sempre consigo fazer uma piada em situações de
perigo.
– Não adianta fugir de mim, uma hora você vai ter que voltar
para tentar me matar, e quando você por os pés na sua casa, eu vou estar lá
para te matar, e depois...
Começo a me sentir asfixiado por causa da mão de Hades
apertando o meu pescoço e tudo começa a escurecer. Tento gritar, mas não sai
nenhum som da minha garganta. Ainda consigo sentir Hades soltando meu pescoço e
o baque da queda no chão. Ouço barulhos indistinguíveis, parecem gritos de
mulher. Reconheço meu nome entre os gritos e logo lembro que são os gritos da
minha vó.
– Acorda Jhonny! Ele tá acordando, pega um copo d’água
Gelsinho!
Abro os olhos e vejo minha vó inteira, sem nenhuma mordida de
cachorro, dou um pulo e a abraço.
– Ainda que você tá viva vó, ainda bem que você não morreu
naquele ataque dos cachorros.
– Que ataque Jhonny, do que você tá falando?
– Pronto vó, aqui a água. – Gelsinho chega correndo. – Ouvi o
que você disse. De que ataque dos cachorros você tá falando?
– Vocês não se lembram? Tinha muitos cachorros lá fora, e
eles queriam entrar, e nós ficamos ali naquele canto esperando eles pararem e o
chão explodiu... E cadê o buraco que tava aqui?
– Que buraco Jhonny? A única coisa que aconteceu foi o seu
desmaio depois da vó Mariana nos contar que você é neto do seu Tonho.
– Então é verdade mesmo né vó? Eu sou neto daquele véio
viado.
– Infelizmente sim. – Vó Mariana responde.
Já são quase quatro horas da tarde, mas mesmo assim eu vou
dormir, preciso descansar a mente depois dessa revelação e desse pesadelo
horrível. Mas o estranho é que por mais que tenho sido um pesadelo, ainda sinto
dor no pescoço, minha vó disse que eu me contorci muito tanto que ele achou que
eu estava convulsionando. Acho que esse é o motivo da dor no pescoço. Reviro-me
na cama, mas não consigo dormir, então pego meu celular e ligo o gravador.
“Não sei mais o que esperar da vida, primeiro eu descubro
que sou neto daquele velho doido que desgraçou com a minha mente, depois tenho
um pesadelo terrível, e por mais que minha vó ache que isso tudo é para
atingi-la, eu acho que eu sou mais atingido por essa merda toda. O Gelsinho,
coitado, eu achava que ele era o mais atingido, por ele ter visto a versão
demoníaca do bicho no ônibus, mas aquilo foi fichinha, acho que ele teria um
infarto se visse as coisas que eu visse. Eu sei que a minha vó e o Gelsinho tem
pesadelos e são atingidos por essa macumba que aquele maldito do Tonho fez, e
eu me recuso a chamar aquele monstro do vô. Imagine eu chamando aquele
desgraçado de Vovô Tonho, hahahahaha, puta que pariu, seria ridículo se não
fosse engraçado. Sinto-me como se eu estivesse ficando cada vez mais maluco, um
demônio de um cachorro me perseguindo pelo planos espirituais. Mas eu sei que
isso é de verdade.”
Acabo a gravação e mesmo assim não fico com sono, então eu
pego a cartela de Lorazepam e tiro um comprimido, mas penso mais uma vez e
retiro mais um. Vou à cozinha e tomo o remédio lá mesmo. Coloco o copo dentro
da pia e volto ao quarto. Enquanto caminho até lá, percebo que meus pés estão
pesados, acho que o Lorazepam fez efeito mais rápido hoje. Consigo chegar na
cama arrastando os pés, deito e me deixo conduzir pelos sonhos malucos que eu
tenho após tomar Lorazepam.
Continua
Capítulo Seguinte: Manicômio e Glorinha
Capítulo Anterior: “O Que Você tem a Ver com Essa História Toda?”
Capítulo Seguinte: Manicômio e Glorinha
Capítulo Anterior: “O Que Você tem a Ver com Essa História Toda?”
Nenhum comentário:
Postar um comentário
O seu comentário é muito importante para a vida desse blog, pois assim posso saber o que vocês estão achando dele. Então, comentem, podem elogiar, fazer críticas (construtivas), dar sugestões, enfim, só não pode haver desrespeito, senão eu vou ser obrigado a moderar seu comentário.