Não consigo ver nada, está tão
escuro que parece que eu posso tocar a escuridão. Ando meio tonto por causa do
Lorazepam e caço alguma parede, alguma coisa pra me apoiar. Depois de ficar por
meia hora andando com as mãos na frente, eu consigo achar uma parede que
convenientemente tem um interruptor. Eu ligo o interruptor e tudo explode em
uma luz branca.
Gradualmente a luz branca diminui
e tudo ao meu redor ganha cores pesadas. As paredes o teto são manchados de
infiltrações, e olhando para o chão tem-se a impressão de que ele já foi
branco. Estou em um corredor comprido, e mesmo com um silêncio assustador, eu
sinto algo me chamando a ir em frente.
Avanço e começo a ouvir uma
musiquinha enjoada que vai aumentando quanto mais eu avanço pelo corredor. Ao
longe consigo vislumbrar uma porta de madeira, e quando chego mais perto, vejo
que ela não está trancada. O som da música enjoada é abafado pela pesada porta
de madeira. Hesito em abrir, mas minha curiosidade vence e entro no que parece
ser um espaço de convivência. Há várias pessoas com comportamentos estranhos,
uma delas está andando de quatro perseguindo moças novas, outro está escutando
um radinho de pilha e parece estar tão entretido que está com os olhos virados
e falando com o rádio. Todos usam roupas que parecem pijamas, e quando vejo uma
enfermeira percebo que aquilo é um hospício. A partir daí eu perco todo
controle sobre mim, meu corpo não responde aos comandos do meu cérebro.
Meu corpo está paralisado, eu não
consigo mexer nem uma sobrancelha sequer, e nem piscar o olho, consigo apenas
ver, ouvir e sentir cheiros, gostos e toques. Vejo um homem se levantar, ele
deve estar na casa dos 65 anos, ele parece nervoso e tem várias cicatrizes no
rosto. Ele tem um rosto familiar, parece alguém que eu conheço, mas não estou
lembrado de onde. Ele anda na direção de um rapaz e começa a xingá-lo. O rapaz
olha para os lados e dá um sorriso discreto. Parece que ele chama o velho, o
desafia.
O velho chega perto do jovem e dá
um forte soco no rosto do rapaz, que cai no chão. O velho o levanta e dá mais
um soco. A enfermeira corre para chamar ajuda. O rapaz está de pé, mas não
reage, e ele continua com o sorriso no rosto. Qual é o problema desse rapaz?
Como alguém pode sorrir, mesmo que discretamente, quando se está levando uma
surra? E o velho não tem piedade, descarrega uma fúria descomunal no jovem.
O velho derruba o rapaz e começa
a chutá-lo, quando dois enfermeiros brutamontes aparecem. O sorriso do rapaz se
desfaz na hora e ele começa a chorar gritando:
– Para! Para! Socorro!
Os dois enfermeiros agarram o
velho pelos braços e o imobilizam. A enfermeira chega perto e fala:
– Senhor Jonathan Rodrigues, quantas
vezes eu terei de coloca-lo naquele quartinho? Já faz 20 anos que o senhor está
aqui, mas ainda se comporta como quando chegou.
Meu corpo paralisado se arrepiou
quando ela falou o meu nome completo, mas direcionado ao velho. Agora eu sei de
onde conheço esse velho, esse velho sou eu. A enfermeira pega uma injeção
aplica no pescoço do meu eu que está imobilizado e ele desmaia na hora. Depois ela
olha na minha direção, se transforma em Hades e diz com aquela voz:
– Esse é o seu futuro.
Acordo e caio da cama. Mexo os braços,
as pernas, a sobrancelha e pisco o olho, está tudo normal. Percebo que foi um
pesadelo e vou a cozinha beber água. Ainda estou sonolento por causa do
Lorazepam. Olho para o relógio da cozinha da minha vó e vejo que já se passaram
catorze horas desde que eu desabei na cama. Minha avó desce a escada, de banho
tomado e começa a preparar o café da manhã.
– Não me lembro de você acordando
tão cedo assim meu filho.
– Tive outro pesadelo, e ele foi
muito real. Eu acho que vi meu futuro.
– Tem certeza de que foi por
causa do Hades? Você esqueceu a cartela do Lorazepam em cima da pia, e está com
dois comprimidos a menos. Quer se abrir?
– Vó, eu acho que eu tô ficando
viciado em Lorazepam, depois que esses pesadelos começaram eu passei a tomar
desenfreadamente. Você acha que eu estou tendo os pesadelos mais pesados por
causa do remédio vó?
– Tenho minhas dúvidas, pois já
aconteceu isso uma vez com uma família que eram meus vizinhos quando eu tinha
uns quinze anos. A Analice na época era namorada de um rapazinho que eu sempre
associo ao Tonho, não sei o motivo. Mas ela o humilhou porque ele não podia leva-la
ao cinema, pois estava sem dinheiro e terminou com ele para imediatamente
começar a namorar outro rapazinho. Naquela época, namoro não era que nem é
hoje, era só andar de mão dada, dar beijinho na mão e pronto, e os pais da
minha vizinhança eram muito conservadores. O rapazinho que me lembra do Tonho
ficou possesso quando a Analice terminou com ele, mas não fez nada, acabou
sumindo. Depois de um tempo, nessas conversinhas de garotas, a Analice me
contou que ela e a família dela andavam tendo uns pesadelos com cobras
falantes. A mãe dela tomava remédios, e sempre era ela que tinha os piores
pesadelos. Depois de muitos pesadelos, todos ficaram malucos e atearam fogo na
casa.
Do nada começou a tocar Burn do
Deep Purple, e eu caçando de onde vinha a música e era o meu celular tocando. O
visor mostrava um número muito conhecido e um nome que me fazia esquecer até
dor de barriga.
“Oi Jhonny, como está aí?” Ela
disse.
– Oi Glorinha, aqui tá tudo bem,
já tá com saudade? – Eu disse.
“Convencido? Você? Imagina!”
– Ah, eu sei que você me ama, só
não quer admitir. Mas como é que estão as coisas aí?
“Você quer falar sobre o cachorro
né? Tá bom, o bicho não perturba desde que vocês viajaram.”
– Como?
“É, parece que o bicho ama vocês
hahahahaha, mas piadinhas a parte, nem parece que ele está aqui.”
– Estranho né.
“Muito, parece até que o bicho
foi pra aí com vocês.”
Quando ela disse isso eu fiquei
totalmente branco e gelei, tanto que até minha vó notou e ficou perguntando o
que a Glorinha tinha me falado pra eu ficar assim.
“Ainda está aí Jhonny, parece que
o cachorro comeu sua língua.”
– Não só a minha língua como
também a minha sanidade.
“O que? Peraí que tem alguém
batendo na porta.”
– Só pensando alto, vai lá
atender.
Fico esperando a Glorinha para
voltarmos a conversar, mas do nada eu ouço o grito dela, uma pancada e o vento.
Começo a me desesperar, esse bicho quer mesmo que eu volte para o Rio. Começo a
chorar de verdade agora, com direito a gritos e “Eu quero a minha mãe”.
– Vó, eu vou ter que voltar pro
Rio. – Eu digo entre um soluço e um grito.
Continua
Capítulo Seguinte: Parente
Capítulo Anterior: Buraco no Chão
Continua
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no final do capitulo vc escreveu continua. ah se tivesse "fim" eu saía daqui de MT até onde vc tá e t matava Bart kkkkkk mas a historia tá legal e please anda logo com o proximo capitulo.
ResponderExcluirSilvano (7rákus)