31/01/2013

O Cachorro do Vizinho - Manicômio e Glorinha


Não consigo ver nada, está tão escuro que parece que eu posso tocar a escuridão. Ando meio tonto por causa do Lorazepam e caço alguma parede, alguma coisa pra me apoiar. Depois de ficar por meia hora andando com as mãos na frente, eu consigo achar uma parede que convenientemente tem um interruptor. Eu ligo o interruptor e tudo explode em uma luz branca.

Gradualmente a luz branca diminui e tudo ao meu redor ganha cores pesadas. As paredes o teto são manchados de infiltrações, e olhando para o chão tem-se a impressão de que ele já foi branco. Estou em um corredor comprido, e mesmo com um silêncio assustador, eu sinto algo me chamando a ir em frente.

Avanço e começo a ouvir uma musiquinha enjoada que vai aumentando quanto mais eu avanço pelo corredor. Ao longe consigo vislumbrar uma porta de madeira, e quando chego mais perto, vejo que ela não está trancada. O som da música enjoada é abafado pela pesada porta de madeira. Hesito em abrir, mas minha curiosidade vence e entro no que parece ser um espaço de convivência. Há várias pessoas com comportamentos estranhos, uma delas está andando de quatro perseguindo moças novas, outro está escutando um radinho de pilha e parece estar tão entretido que está com os olhos virados e falando com o rádio. Todos usam roupas que parecem pijamas, e quando vejo uma enfermeira percebo que aquilo é um hospício. A partir daí eu perco todo controle sobre mim, meu corpo não responde aos comandos do meu cérebro.


Meu corpo está paralisado, eu não consigo mexer nem uma sobrancelha sequer, e nem piscar o olho, consigo apenas ver, ouvir e sentir cheiros, gostos e toques. Vejo um homem se levantar, ele deve estar na casa dos 65 anos, ele parece nervoso e tem várias cicatrizes no rosto. Ele tem um rosto familiar, parece alguém que eu conheço, mas não estou lembrado de onde. Ele anda na direção de um rapaz e começa a xingá-lo. O rapaz olha para os lados e dá um sorriso discreto. Parece que ele chama o velho, o desafia.

O velho chega perto do jovem e dá um forte soco no rosto do rapaz, que cai no chão. O velho o levanta e dá mais um soco. A enfermeira corre para chamar ajuda. O rapaz está de pé, mas não reage, e ele continua com o sorriso no rosto. Qual é o problema desse rapaz? Como alguém pode sorrir, mesmo que discretamente, quando se está levando uma surra? E o velho não tem piedade, descarrega uma fúria descomunal no jovem.

O velho derruba o rapaz e começa a chutá-lo, quando dois enfermeiros brutamontes aparecem. O sorriso do rapaz se desfaz na hora e ele começa a chorar gritando:

– Para! Para! Socorro!

Os dois enfermeiros agarram o velho pelos braços e o imobilizam. A enfermeira chega perto e fala:

– Senhor Jonathan Rodrigues, quantas vezes eu terei de coloca-lo naquele quartinho? Já faz 20 anos que o senhor está aqui, mas ainda se comporta como quando chegou.

Meu corpo paralisado se arrepiou quando ela falou o meu nome completo, mas direcionado ao velho. Agora eu sei de onde conheço esse velho, esse velho sou eu. A enfermeira pega uma injeção aplica no pescoço do meu eu que está imobilizado e ele desmaia na hora. Depois ela olha na minha direção, se transforma em Hades e diz com aquela voz:

– Esse é o seu futuro.

Acordo e caio da cama. Mexo os braços, as pernas, a sobrancelha e pisco o olho, está tudo normal. Percebo que foi um pesadelo e vou a cozinha beber água. Ainda estou sonolento por causa do Lorazepam. Olho para o relógio da cozinha da minha vó e vejo que já se passaram catorze horas desde que eu desabei na cama. Minha avó desce a escada, de banho tomado e começa a preparar o café da manhã.

– Não me lembro de você acordando tão cedo assim meu filho.

– Tive outro pesadelo, e ele foi muito real. Eu acho que vi meu futuro.

– Tem certeza de que foi por causa do Hades? Você esqueceu a cartela do Lorazepam em cima da pia, e está com dois comprimidos a menos. Quer se abrir?

– Vó, eu acho que eu tô ficando viciado em Lorazepam, depois que esses pesadelos começaram eu passei a tomar desenfreadamente. Você acha que eu estou tendo os pesadelos mais pesados por causa do remédio vó?

– Tenho minhas dúvidas, pois já aconteceu isso uma vez com uma família que eram meus vizinhos quando eu tinha uns quinze anos. A Analice na época era namorada de um rapazinho que eu sempre associo ao Tonho, não sei o motivo. Mas ela o humilhou porque ele não podia leva-la ao cinema, pois estava sem dinheiro e terminou com ele para imediatamente começar a namorar outro rapazinho. Naquela época, namoro não era que nem é hoje, era só andar de mão dada, dar beijinho na mão e pronto, e os pais da minha vizinhança eram muito conservadores. O rapazinho que me lembra do Tonho ficou possesso quando a Analice terminou com ele, mas não fez nada, acabou sumindo. Depois de um tempo, nessas conversinhas de garotas, a Analice me contou que ela e a família dela andavam tendo uns pesadelos com cobras falantes. A mãe dela tomava remédios, e sempre era ela que tinha os piores pesadelos. Depois de muitos pesadelos, todos ficaram malucos e atearam fogo na casa.

Do nada começou a tocar Burn do Deep Purple, e eu caçando de onde vinha a música e era o meu celular tocando. O visor mostrava um número muito conhecido e um nome que me fazia esquecer até dor de barriga.

“Oi Jhonny, como está aí?” Ela disse.

– Oi Glorinha, aqui tá tudo bem, já tá com saudade? – Eu disse.

“Convencido? Você? Imagina!”

– Ah, eu sei que você me ama, só não quer admitir. Mas como é que estão as coisas aí?

“Você quer falar sobre o cachorro né? Tá bom, o bicho não perturba desde que vocês viajaram.”

– Como?

“É, parece que o bicho ama vocês hahahahaha, mas piadinhas a parte, nem parece que ele está aqui.”

– Estranho né.

“Muito, parece até que o bicho foi pra aí com vocês.”

Quando ela disse isso eu fiquei totalmente branco e gelei, tanto que até minha vó notou e ficou perguntando o que a Glorinha tinha me falado pra eu ficar assim.

“Ainda está aí Jhonny, parece que o cachorro comeu sua língua.”

– Não só a minha língua como também a minha sanidade.

“O que? Peraí que tem alguém batendo na porta.”

– Só pensando alto, vai lá atender.

Fico esperando a Glorinha para voltarmos a conversar, mas do nada eu ouço o grito dela, uma pancada e o vento. Começo a me desesperar, esse bicho quer mesmo que eu volte para o Rio. Começo a chorar de verdade agora, com direito a gritos e “Eu quero a minha mãe”.

– Vó, eu vou ter que voltar pro Rio. – Eu digo entre um soluço e um grito.

Continua

Capítulo Seguinte: Parente
Capítulo Anterior: Buraco no Chão

Um comentário:

  1. no final do capitulo vc escreveu continua. ah se tivesse "fim" eu saía daqui de MT até onde vc tá e t matava Bart kkkkkk mas a historia tá legal e please anda logo com o proximo capitulo.
    Silvano (7rákus)

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