Um enjoo toma conta de mim e meu
estômago faz força para vomitar, mas como ainda é de manhã e eu ainda não comi,
não sai nada. Começo a ficar tonto e vejo tudo rodar, eu ouço os uivos de
Hades, tenho a impressão de que estou em minha casa, no Rio de Janeiro, mas eu
luto para essa sensação passar, eu não quero esse demônio na minha mente, pelo
menos agora não.
A impressão de que estou em minha
casa passa, mas eu tombo para o lado e começo a tremer em posição fetal,
chorando e gritando como quando o Hades apareceu na minha cama.
– NÃO, A GLORINHA NÃO! EU VOU
MATAR AQUELE BICHO MALDITO! E VOU MATAR LENTAMENTE, E VOU MATAR AQUELE VELHO
DESGRAÇADO TAMBÉM!
Pelo canto do olho, vejo Gelsinho
chegando, mas só vejo mesmo, porque eu não estou ouvindo mais nada, será que eu
fiquei surdo? Eu começo a tremer no chão e viro os olhos, mas ainda sinto o meu
corpo, e sinto um caldo quente dentro da minha cueca. Sinto braços me
sacudindo, mas não sei de quem são, pois não consigo ver nada. Então tudo fica
preto e eu não consigo ver nada.
...
Sinto o ar gelado batendo na minha pele, e um cheiro de
lugar limpo invade minhas narinas. Mas estou com preguiça de abrir os olhos,
apenas falo com um fio de voz:
– Tô com frio!
Sinto um cobertor grosso sendo puxado até a altura do meu
ombro. Minha audição ainda não voltou ao normal, parece que o que eu estou
ouvindo vem de muito longe, é a voz do Gelsinho.
– Doutor, ele falou, ele tá acordando.
Minha audição começa a melhorar e ouço pingos e um bip
constante. Faço forças para abrir os olhos, mas estou muito fraco até para
abrir os olhos. Tento de novo, e nessa segunda vez eu consigo. Estou em um
quarto de hospital, vejo Gelsinho, minha vó e um médico andando em direção a
mim, mas eles estão muito fora de foco.
– Jonathan, boa tarde. Se sente melhor? – Ouço o médico falar.
– Não muito, mas já dá pra fazer alguma coisa. – Eu digo com
o mesmo fio de voz.
– Prazer, eu sou o Dr. Abel, sou neurologista. Você dormiu
um bocado hein rapaz.
A porta bate e outro médico entra, ele é mais velho que o
Dr. Abel, e se eu fosse chutar a idade dele, eu daria uns 73 anos para ele.
– Você é que é o rapaz que estava dormindo há cinco dias? –
O médico com cara de 73 anos diz.
– É ele mesmo. – Dr. Abel responde por mim. – Daqui a pouco
eu te passo o relatório de hoje, a partir de agora ele é responsabilidade sua. –
Depois se vira para minha vó e a chama num canto. – Dona Mariana, eu preciso
conversar com a senhora agora.
– Sim, claro, vamos Gelsinho.
Antes de sair minha vó me dá um beijo no rosto e fala que
volta mais tarde. Ficamos somente eu e o médico velho no quarto.
– Prazer Jonathan, eu sou o Dr. Rogério, sou psicólogo, mas
também atuo na área da psiquiatria.
– Doutor... pelo amor de Deus... me ajuda a tirar esse bicho
da cabeça. – Tento falar mais alto, mas isso ainda só sai esse fio de voz, mas
parece que o Dr. Rogério consegue me ouvir.
– Primeiro me conte a verdade sobre tudo o que aconteceu antes
desse ataque que você teve.
Contei tudo o que eu lembrava, omitindo nomes é claro, e o
Dr. Rogério ouvia atentamente tudo o que eu dizia. Quando eu terminei de falar,
vi que Dr. Rogério estava analisando o que eu tinha dito, e cada vez mais eu
tinha a impressão que sairia daquele hospital numa camisa-de-força.
– Mas doutor, antes de me dar um diagnóstico – Dou uma
tossida e até que enfim minha voz melhora um pouco – o que eu tive?
– Você teve um desgaste emocional muito grande ao associar o
sumiço da sua amiga com o cachorro, então sua mente entrou em colapso, o que
fez efeito também no corpo, você é a primeira pessoa que eu vejo ter esse tipo
de ataque.
– Ok, mas e agora, eu vou sair daqui numa camisa-de-força? –
Pergunto tentando ser engraçado.
– Claro que não meu jovem – ele dizia em meio a gargalhadas –
Isso não é motivo pra te internar em um hospício.
– Mas doutor, o Hades pegou mesmo a Glorinha?
– Hades é o nome do cachorro?
– Sim.
– Curioso, meu irmão mais novo tinha um cachorro chamado
Hades também.
Ai, agora começou a sessão em que o velho médico começa a
falar da sua vida pessoal.
– Eu nem tenho mais contato com ele, depois que ele comprou
uns livros antigos e estranhos, ele cortou contato com toda família.
– E qual é o nome dele? – Pergunto tentando mostrar um pouco
de interesse na vida pessoal do velho Dr. Rogério.
– Antônio, mas ele é mais conhecido como Tonho mesmo, já faz
muito tempo que eu não o vejo, mas eu soube que ele se envolveu com uma moça
casada, teve até um filho com ela, mas ela falou pra ele sumir.
Agora eu fiquei com medo, a história do irmão do Dr. Rogério
bate direitinho com a que a minha vó contou sobre o Tonho, até o apelido é o
mesmo, a única coisa que não bate é o cachorro, cachorros não vivem tanto
tempo.
– Por acaso, o cachorro do seu irmão era um rottweiler?
– Sim. Por que a pergunta? – Agora quem tomava ares de
espanto era o médico.
– O seu irmão tatuou no braço um símbolo estranho,
parecendo...
– ... uma forma de diamante envolvendo uma cobra de duas
cabeças? Sim, era o símbolo que tinha em um daqueles livros, ele me contou que
um daqueles livros ensinava a prolongar a vida de todos os seres vivos além da
expectativa.
Ele ficou em silêncio quando viu minha expressão assustada.
– Doutor Rogério, a moça casada que o seu irmão engravidou é
a minha avó, e meu pai é o fruto dessa traição, o que faz de mim neto do seu
irmão e seu sobrinho-neto.
Dessa vez quem ficou atônito foi ele, ele levantou e falou
bem alto.
– Agora aquele desgraçado está fazendo aquelas merdas com
adolescentes?! Já chegou a hora dele parar com isso!
Continua...
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Capítulo Anterior: Manicômio e Glorinha
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