– Vou te levar pro Rio de Janeiro amanhã!
– Não, eu não quero voltar pro Rio, não com aquele cachorro
maldito querendo me matar! – Eu gritei.
– Olha só meu querido sobrinho-neto, agora eu sou o médico
responsável por você, ou seja, eu não posso te deixar aqui e ir para o Rio
sozinho pra dar um jeito no vagabundo do meu irmão, então você também terá
que
voltar ao Rio. Eu sou seu psicólogo agora, entendeu?
– Não, eu não quero voltar, não depois do que aquele bicho
fez com a Glorinha.
– A sua amiga está bem lá no Rio, ela só levou um tombo e
desmaiou.
– Mesmo assim ainda vou pensar se eu vou pro Rio ou não.
– Você vai para o Rio sim e fim de papo, além do mais, você
tem que enfrentar seu medo. – Após dizer isso ele se levanta, se despede de
maneira rude e sai. Médico mais ranzinza, pior ainda é meu tio-avô, isso é
jeito que se trata um paciente que também é sobrinho-neto? Eu não quero voltar
para o Rio nem tão cedo.
Minha vó entra no quarto, é ela que vai ficar de
acompanhante essa noite, amanhã eu recebo alta, mas nem sei o que vai
acontecer, aquele médico maluco quer me levar para o Rio. Não contei nada a
minha vó sobre esse médico ser meu tio avô pretendo manter segredo quanto a
isso. Gelsinho entra no quarto e ficamos conversando nós três, sem falar nada
sobre o cachorro.
– Já sabe que seu Lorazepam foi cortado né seu viciado? –
Gelsinho pergunta enquanto minha vó tira um cochilo.
– Melhor assim, pelo menos eu paro de ter esses pesadelos. –
Eu digo me referindo ao fato de eu ter os piores pesadelos. – E também, sempre
depois que eu acordo ainda fico meio zonzo.
– Aí, isso aí no teu braço dói? – Gelsinho aponta para uma
agulha coberta com esparadrapo espetada no meu braço.
– Nem tanto, só incomoda mesmo. Porra, tá me dando um sono,
vou tirar um cochilo.
– Porra, já dormiu durante cinco dias e ainda quer dormir
mais? – Gelsinho fala isso tão alto que acaba acordando minha vó.
– Olha a boca menino. – Diz minha vó após um bocejo – Tô com
uma fome, tá com fome também Gelsinho?
Gelsinho responde que sim e os dois saem do quarto, mas antes
de sair minha vó diz que eles irão lá embaixo fazer um lanche rápido e depois
voltam. Pego um livro que minha vó trouxe para eu ler, mas o sono começa a me
dominar e eu acabo largando o livro. Fico esperando minha vó e o Gelsinho
chegarem, mas eles estão demorando, é quase certo que Gelsinho comprou mais alguma
coisa pra comer. Como eles não chegam tão rápido o quanto prometeram, eu tiro
um cochilo.
...
Estou de novo no manicômio, dessa vez o meu eu futuro está
mais novo, acho que estou no dia em que eu vou acabar parando nesse manicômio,
e pelo que eu pude ver, é um manicômio clandestino. O meu eu que está sendo
carregado sedado numa maca deve ter no máximo 45 anos. Acho que nessa época,
aquela enfermeira que eu vi em outra visão devia ser uma criança. Fico me perguntando o porquê de eu ter parado
nesse manicômio, mas minhas divagações são interrompidas por um grito, o meu eu
acordou e está se debatendo e gritando na maca, mas ele está imobilizado na
maca e não vai conseguir se livrar daquilo nem tão cedo.
O meu eu futuro grita muito alto e fica olhando em todas as
direções, então ele olha pra mim.
– Me ajuda desgraça, me tira daqui!
– Vo... vo... você com... consegue me... me... ver? – Eu pergunto
e começo a gaguejar.
– Claro que eu consigo! Seu filho da puta! – Parece que o
meu eu não está me reconhecendo.
Os enfermeiros que o estão contendo olham também na minha
direção, mas não enxergam nada.
– Porra, me ajudaaaa! Me ajuda a sair daqui seu merdinha! –
O meu eu futuro ainda continua gritando.
Eu começo a andar para trás e atravesso a porta de ferro do
hospício e acabo parando na rua. É uma estrada de terra no meio do nada, só tem
mato em volta. Saio correndo por essa estrada e começo a ter a sensação de
estar sendo seguido. Paro, olho para trás e não vejo nada nem ninguém me
seguindo, respiro um pouco e volto a anda, mas dessa vez mais devagar.
Depois de duas horas caminhando, eu paro de novo, estou
muito cansado para continuar, mas convenientemente estou sem sono. Boto a mão
no bolso de trás da calça e tiro uma caixa de Lorazepam. Lembro que o Doutor
Rogério me proibiu de tomar, mas ele não está aqui para ver.
Um latido raivoso ecoa no ar, e vejo um ponto preto se
aproximando rapidamente de mim, estou encostado em uma árvore, tentando abrir a
caixa de Lorazepam, mas não consigo abrir. O ponto preto está casa vez mais
perto e eu vejo que é o Hades. Tento abrir a caixa de todas as maneiras para
poder dormir não ouvir a voz daquele bicho, mas a caixa some do nada. Eu começo
a gritar com os olhos fechados e não ouço mais nada além do meu grito, paro de
gritar e ouço uma risada característica de velho. Abro os olhos e lá está o
desgraçado que me jogou nessa merda toda, vovô Tonho.
– Tá gritando demais, vou te botar pra dormir de novo moleque.
– Diz o velho caquético antes de pegar uma seringa e injetar o conteúdo no meu
pescoço. – Pronto. Agora você vai dormir por bastante tempo moleque barulhento.
Tudo começa a escurecer, sinto meu corpo ficando mais
pesado, e reconheço os efeitos do Lorazepam, só que muito mais fortes do que o
comum. Minha visão escurece de vez e durante muito tempo eu achei que estava cego.
Sinto que estou deitado num chão de concreto e abro os olhos, mas mesmo assim
ainda vejo tudo escuro, mas isso é apenas porque eu estou vendado. Tento mexer
os braços, mas eles estão fortemente amarrados, e minha boca está coberta por
uma fita adesiva. Cadê a cama de hospital? Cadê o cheiro de hospital? Aqui tem
cheiro de mofo. Tento gritar, porém o som sai abafado por causa da fita adesiva
na minha boca. Uma porta se abre e eu consigo ouvir bem de longe uma música que
eu não conheço. Ouço passos e uma pessoa para perto de mim, e tira a venda dos
meus olhos, tento habituar minha visão a luz repentina e tomo um susto quando
eu reconheço quatro pessoas vivas e uma morta. Minha vó e o Gelsinho na mesma
situação que eu, Doutor Rogério e Tonho em pé rindo da minha cara e a metade de
um corpo pendurada perto de Hades.
Do outro lado do cômodo onde estou, vejo Hades dormindo.
Doutor Rogério e “vovô Tonho” ainda estão rindo da minha cara, e eu estou
começando a ficar nervoso com isso. O Tonho percebe isso pergunta:
– Como foi a viagem até aqui? E aquele corpo ali é da
Glorinha, ok?
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