13/02/2013

O Cachorro do Vizinho - Surpresas


– Vou te levar pro Rio de Janeiro amanhã!

– Não, eu não quero voltar pro Rio, não com aquele cachorro maldito querendo me matar! – Eu gritei.

– Olha só meu querido sobrinho-neto, agora eu sou o médico responsável por você, ou seja, eu não posso te deixar aqui e ir para o Rio sozinho pra dar um jeito no vagabundo do meu irmão, então você também terá 
que voltar ao Rio. Eu sou seu psicólogo agora, entendeu?

– Não, eu não quero voltar, não depois do que aquele bicho fez com a Glorinha.

– A sua amiga está bem lá no Rio, ela só levou um tombo e desmaiou.

– Mesmo assim ainda vou pensar se eu vou pro Rio ou não.

– Você vai para o Rio sim e fim de papo, além do mais, você tem que enfrentar seu medo. – Após dizer isso ele se levanta, se despede de maneira rude e sai. Médico mais ranzinza, pior ainda é meu tio-avô, isso é jeito que se trata um paciente que também é sobrinho-neto? Eu não quero voltar para o Rio nem tão cedo.


Minha vó entra no quarto, é ela que vai ficar de acompanhante essa noite, amanhã eu recebo alta, mas nem sei o que vai acontecer, aquele médico maluco quer me levar para o Rio. Não contei nada a minha vó sobre esse médico ser meu tio avô pretendo manter segredo quanto a isso. Gelsinho entra no quarto e ficamos conversando nós três, sem falar nada sobre o cachorro.

– Já sabe que seu Lorazepam foi cortado né seu viciado? – Gelsinho pergunta enquanto minha vó tira um cochilo.

– Melhor assim, pelo menos eu paro de ter esses pesadelos. – Eu digo me referindo ao fato de eu ter os piores pesadelos. – E também, sempre depois que eu acordo ainda fico meio zonzo.

– Aí, isso aí no teu braço dói? – Gelsinho aponta para uma agulha coberta com esparadrapo espetada no meu braço.

– Nem tanto, só incomoda mesmo. Porra, tá me dando um sono, vou tirar um cochilo.

– Porra, já dormiu durante cinco dias e ainda quer dormir mais? – Gelsinho fala isso tão alto que acaba acordando minha vó.

– Olha a boca menino. – Diz minha vó após um bocejo – Tô com uma fome, tá com fome também Gelsinho?

Gelsinho responde que sim e os dois saem do quarto, mas antes de sair minha vó diz que eles irão lá embaixo fazer um lanche rápido e depois voltam. Pego um livro que minha vó trouxe para eu ler, mas o sono começa a me dominar e eu acabo largando o livro. Fico esperando minha vó e o Gelsinho chegarem, mas eles estão demorando, é quase certo que Gelsinho comprou mais alguma coisa pra comer. Como eles não chegam tão rápido o quanto prometeram, eu tiro um cochilo.
...
Estou de novo no manicômio, dessa vez o meu eu futuro está mais novo, acho que estou no dia em que eu vou acabar parando nesse manicômio, e pelo que eu pude ver, é um manicômio clandestino. O meu eu que está sendo carregado sedado numa maca deve ter no máximo 45 anos. Acho que nessa época, aquela enfermeira que eu vi em outra visão devia ser uma criança.  Fico me perguntando o porquê de eu ter parado nesse manicômio, mas minhas divagações são interrompidas por um grito, o meu eu acordou e está se debatendo e gritando na maca, mas ele está imobilizado na maca e não vai conseguir se livrar daquilo nem tão cedo.

O meu eu futuro grita muito alto e fica olhando em todas as direções, então ele olha pra mim.

– Me ajuda desgraça, me tira daqui!

– Vo... vo... você com... consegue me... me... ver? – Eu pergunto e começo a gaguejar.

– Claro que eu consigo! Seu filho da puta! – Parece que o meu eu não está me reconhecendo.

Os enfermeiros que o estão contendo olham também na minha direção, mas não enxergam nada.

– Porra, me ajudaaaa! Me ajuda a sair daqui seu merdinha! – O meu eu futuro ainda continua gritando.

Eu começo a andar para trás e atravesso a porta de ferro do hospício e acabo parando na rua. É uma estrada de terra no meio do nada, só tem mato em volta. Saio correndo por essa estrada e começo a ter a sensação de estar sendo seguido. Paro, olho para trás e não vejo nada nem ninguém me seguindo, respiro um pouco e volto a anda, mas dessa vez mais devagar.

Depois de duas horas caminhando, eu paro de novo, estou muito cansado para continuar, mas convenientemente estou sem sono. Boto a mão no bolso de trás da calça e tiro uma caixa de Lorazepam. Lembro que o Doutor Rogério me proibiu de tomar, mas ele não está aqui para ver.

Um latido raivoso ecoa no ar, e vejo um ponto preto se aproximando rapidamente de mim, estou encostado em uma árvore, tentando abrir a caixa de Lorazepam, mas não consigo abrir. O ponto preto está casa vez mais perto e eu vejo que é o Hades. Tento abrir a caixa de todas as maneiras para poder dormir não ouvir a voz daquele bicho, mas a caixa some do nada. Eu começo a gritar com os olhos fechados e não ouço mais nada além do meu grito, paro de gritar e ouço uma risada característica de velho. Abro os olhos e lá está o desgraçado que me jogou nessa merda toda, vovô Tonho.

– Tá gritando demais, vou te botar pra dormir de novo moleque. – Diz o velho caquético antes de pegar uma seringa e injetar o conteúdo no meu pescoço. – Pronto. Agora você vai dormir por bastante tempo moleque barulhento.

Tudo começa a escurecer, sinto meu corpo ficando mais pesado, e reconheço os efeitos do Lorazepam, só que muito mais fortes do que o comum. Minha visão escurece de vez e durante muito tempo eu achei que estava cego. Sinto que estou deitado num chão de concreto e abro os olhos, mas mesmo assim ainda vejo tudo escuro, mas isso é apenas porque eu estou vendado. Tento mexer os braços, mas eles estão fortemente amarrados, e minha boca está coberta por uma fita adesiva. Cadê a cama de hospital? Cadê o cheiro de hospital? Aqui tem cheiro de mofo. Tento gritar, porém o som sai abafado por causa da fita adesiva na minha boca. Uma porta se abre e eu consigo ouvir bem de longe uma música que eu não conheço. Ouço passos e uma pessoa para perto de mim, e tira a venda dos meus olhos, tento habituar minha visão a luz repentina e tomo um susto quando eu reconheço quatro pessoas vivas e uma morta. Minha vó e o Gelsinho na mesma situação que eu, Doutor Rogério e Tonho em pé rindo da minha cara e a metade de um corpo pendurada perto de Hades.

Do outro lado do cômodo onde estou, vejo Hades dormindo. Doutor Rogério e “vovô Tonho” ainda estão rindo da minha cara, e eu estou começando a ficar nervoso com isso. O Tonho percebe isso pergunta:

– Como foi a viagem até aqui? E aquele corpo ali é da Glorinha, ok?

Continua...

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