“Puta que pariu!“ Foi só o que minha mente conseguiu produzir, e nesse momento eu percebi que eu havia começado uma jornada de afastamento da realidade, uma jornada lenta e que eu recebi como um alívio, mas ainda sentia, ouvia, e podia falar, eu ainda não estava catatônico.
– Ó, eu vou tirar a fita adesiva da sua boca, mas se gritar leva um chute nos ovos! – Disse Tonho com um tom de voz alternando entre o infantil e o grosseiro.
Ele lentamente tira a fita adesiva, quase não sinto nada, acho que levei tanta porrada dormindo que meu corpo está todo entorpecido. Assim que ele tira, eu cuspo sangue e dentes no chão, eu acho que apanhei dos dois, do Tonho e do Rogério.
– Por que ainda não me matou? Você já conseguiu o que queria, não é? – Eu sussurro.
– E o que eu queria? Você por acaso lê mentes? Até onde eu sei o praticante de magia negra aqui sou eu seu moleque filho da puta! – Disse o Tonho
– Cacete – Murmuro num tom impaciente – Seu objetivo não era se vingar da minha avó destruindo a minha mente?
O velho ri loucamente e diz entre risos:
– Você é um ótimo humorista, porra, até fodido do jeito que você tá você ainda me faz rir. Mas sabe qual é a minha motivação pra fazer isso tudo? – Ele faz uma pausa dramática e depois vocifera – NENHUMA! – E tem outro ataque de risos.
Sinto meus níveis de adrenalina subir e grito:
– POR QUE EU PORRA? PORQUE NÓS TRÊS?
Ele me dá um chute nos testículos que eu perco a noção do tempo que eu fiquei fora do ar tentando acalmar a dor, vejo coisas brilhando e se desfazendo no preto, mas rapidamente eu volto à realidade com um safanão do Tonho.
– E você hein Tio Rogério – dou ênfase no “tio” – Aposto que nem meu tio avô de verdade você né?
– Rogério não pode falar, ele é o meu mestre, está aqui para me avaliar, só poderá falar depois que eu terminar.
– Terminar o que? – Eu digo assustado.
– Antes de responder essa sua pergunta, eu vou responder a sua outra, aquela sobre porque eu escolhi vocês. Simples, eu precisava de corpos vivos para isso, e se desse errado, quem iria morrer mesmo seria o infeliz que eu pegaria de cobaia. Perguntei-me quem não faria falta no mundo e lembrei-me da sua avó, a Mariana, ela era tão linda na época que eu dei uma lapada no meio daquelas pernas, agora é uma velha imprestável, não serve pra nada, a não ser ficar atrapalhando a minha mente como a minha consciência do bem. Já você e esse corno do seu amigo não fui eu que escolhi, foi o destino... – Ele começou a falar com um ar megalomaníaco – ele apontou para vocês dois naquele dia em que o meu bichinho atacou seu amigo, lembra? Todo aquele sangue que o Hades provou marcou o seu amigo para ser uma das minhas cobaias.
– E eu, eu não te fiz nada de mal, nem o meu sangue aquele demônio provou, porque eu?
– Você foi escolhido através do Hades, ele é meu espírito familiar, ele me apontou o seu nome e então eu comecei a me projetar em sua mente na forma do Hades, inclusive naquele o falso aviso no banheiro do ônibus de que você teria que mata-lo, aquilo era só para te atrair para cá, mas você estava tão entupido de Lorazepam que você não acreditou naquilo. Aí eu tive que armar todo esse circo de ilusões mais fortes, mas mesmo assim isso não adiantou. Então eu sequestrei Glorinha e a matei, mesmo assim você não quis vir, aí eu tive que pedir ajuda ao Rogério para te trazer a força, mas não sem antes ganhar a sua confiança. E porque você está sorrindo assim moleque?
– Vai dar errado.
– Como você sabe que vai dar errado se ainda não sabe o que eu vou fazer.
– Porque quando eu fiz tratamento psicológico, na época em que o Gelsinho foi atacado por aquele demônio ali, o psiquiatra me deu um vidrinho com um líquido transparente e me disse que isso poderia me matar se eu tomasse, mas a morte não chegaria muito rápido, ela viria sem sintomas bastante tempo depois, e logo que começaram os pesadelos com o Hades, eu tomei aquele líquido e agora é questão de tempo até a minha morte.
O velho Tonho fica possesso e começa a me espancar de novo, não sinto nada, um entorpecimento tomou meu corpo de novo que eu não sinto nada. Após me espancar, ele pega uma lança e vem andando na minha direção. “Ai que alívio, agora eu morro” foi o que eu pensei até ele virar para a direção da minha avó e do Gelsinho. Com uma estocada rápida de baixo para cima, ele enfia aquela lança no coração da minha avó e depois repete o mesmo com o Gelsinho. Eu fiquei paralisado com aquilo, ele enfiou aquela lança no coração da minha avó e do Gelsinho com uma frieza, como se já estivessem mortos, como se aquilo fosse somente teatro, mas não era, pois eu vi o sangue jorrar da boca dos dois.
Logo após matar minha avó e Gelsinho, o Tonho anda até a minha direção, e fala com uma voz calma, como se não tivesse acabado e de matar dois seres humanos:
– A propósito, eu cortei o efeito daquele líquido transparente que você tomou. Você não vai morrer mais.
Ao ouvir aquilo eu me senti como se eu tivesse saído do meu corpo, vi meu corpo lá em baixo, vi o Tonho, o Rogério, os corpos, até o Hades eu vi, mas também vi vários espíritos flutuando por todo o cômodo, pareciam raivosos e num instante percebo que a raiva que eles sentem era direcionada ao Tonho e o Rogério. “Por favor, me ajudem” penso e os espíritos se viram para mim, “Me ajudem, eu quero vingança, matem o Rogério, deixem o Tonho para mim”.
Um redemoinho de escuridão me joga na direção do meu corpo, ao mesmo tempo em que vários espíritos entram em meu corpo. Antes de entrar no meu corpo, eu vejo o Rogério caindo no chão e sangrando por todos os orifícios de seu corpo. Quando volto, eu me sinto mais forte, aproveito que o Tonho está distraído e faço força sobre os ombros dele, ele cai desajeitado e se levanta muito rápido para alguém da idade dele, mas não dou chance, avanço nele e o derrubo. Começo a dar socos em seu rosto e depois passo a chutá-lo, estava me sentindo pleno, mas minha vingança ainda não estava completa. Deixo-o vivo e imóvel no canto e saio para pegar a lança, tiro a ponta dela e guardo.
Vou andando até onde Hades estava, que de tão encolhido, parece que quer se juntar a parede.
“Então foi você que escolheu o meu nome né seu bicho dos infernos.” Eu sabia que ele podia ouvir meus pensamentos, assim como eu ouvia os dele.
“Por favor, apenas me mate, eu fui obrigado a fazer isso, agora, só me mate, me liberte.”
Tenho pena do cachorro e o mato logo lhe quebrando o pescoço. Sinto a alma dele se juntando às que tinha se vingado de Rogério e me surpreendo ao ver que a alma de Hades era uma alma humana. Volto minha atenção ao Tonho, jogado ao chão como um trapo, mas ainda vivo. Saco a ponta da lança e me aproximo dele.
Rasgo a camisa que ele estava usando e corto a pele de seu abdômen, e quando eu vejo o sangue, sou expulso do meu corpo e sou obrigado a ver o que meu corpo animado pelas almas fazia em nome da vingança. Foi nojento, um orgia de sangue e canibalismo que me faria vomitar se minha alma tivesse estômago, logo após eu não vejo mais nada.
Quando acordo, eu já estou de volta ao meu corpo e em volta de mim, estão as cabeças de todos os mortos naquele cômodo e eu estou coberto do sangue deles, o sangue da Glorinha, da vó Mariana, do Gelsinho, do Rogério e do Tonho. Levanto-me gritando e a empregada do Tonho abre a porta do cômodo e me vê no meio daquela cena grotesca, ela me tranca ali e foge.
Dez minutos depois, chega polícia, ambulância, imprensa e a porra toda. Nessa hora eu já estou totalmente fora da realidade, totalmente catatônico. Me pego falando coisas desconexas, e só ouço o policial falando.
– Sabe o que houve aqui rapaz? Você endoidou, piorou e matou toda essa gente, e não me venha de novo com esse papo de espíritos, seu espírito fora do corpo porque essa sua história é impossível de engolir. – Depois se dirigindo a outro policial – Gomes! Leva esse aqui pro IML, de lá eles vão mandar pro hospital psiquiátrico.
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