20/11/2012

O Cachorro do Vizinho


Desde que eu me entendo por gente, sempre me falaram para ficar longe daquele cachorro, eu não entendia o porquê, mas eu sentia medo do cachorro toda vez que olhava para ele. O seu Tonho, o dono do cachorro e também nosso vizinho, não gostava dos comentários feitos na vizinhança sobre o cachorro, que de acordo com ele era “manso e só atacava quando se sentia ameaçado”.  Mas não foi o que vi quando o Gelsinho foi atacado seis anos atrás.

Naquele dia nós estávamos na rua brincando de pic-esconde, era a minha vez de contar, e o Gelsinho foi se esconder num beco bem escuro para depois bater o “Salve Todos”. Terminei de contar e a Glória estava atrás de mim e bateu o nome dela, então eu saí para procurar as outras crianças, bati o nome de todas, e só faltava o Gelsinho. O Gelsinho se escondeu tão bem que ficamos o procurando por bastante tempo.  Quando desistimos de procurar o Gelsinho, ele saiu correndo apavorado do beco onde estava e eu só vi aquele demônio em forma de cachorro correndo atrás dele, Gelsinho corria o quanto podia, mas como o joelho dele tava machucado, ele corria de um jeito engraçado e o demônio (ou cachorro) já o estava alcançando. O cachorro deu um salto e caiu em cima do garoto, e aquela cena era pior que filme de terror, o cachorro parecia estar possuído, tinha os olhos vermelhos e estava desfigurando Gelsinho. As crianças começaram a gritar desesperadas e eu fui chamar o Caio, o irmão mais velho do Gelsinho, para ajuda-lo. Quando eu voltei, o cachorro já tinha sido tirado de cima do Gelsinho e vários adultos estavam em volta ligando para conseguir uma ambulância. Vi o seu Tonho arrastando o cachorro todo machucado (acho que bateram no cachorro depois que o tiraram de cima do Gelsinho), e dando chicotada no bicho falando em voz alta “EU JÁ FALEI PRA VOCÊ FICAR DENTRO DO QUINTAL, HADES SEU CACHORRO MALDITO”, mas eu olhei melhor e vi que as chicotadas acertavam o chão, e não o corpo do cachorro. A ambulância chegou e Gelsinho foi levado para o hospital. Ele sobreviveu, mas teve que fazer várias cirurgias plásticas para corrigir o estrago que o cachorro fez.


Desde esse dia, ninguém mais viu o Hades, pois seu Tonho o prendeu no fundo do quintal e nunca mais o soltou. Seu Tonho escondeu o Hades tão bem que quando vieram apreender o animal, não acharam e seu Tonho insistia que o cachorro estava morto. Até nós da vizinhança acreditamos que o cachorro realmente estava morto, mas depois de uns dias o bicho começou a latir e uivar de um modo muito estranho que perturbava o sono da vizinhança. Eu próprio já senti vontade de matar aquele cachorro com uma arma que meu pai guarda, mas eu ainda tenho medo de olhar para aquele cachorro, e esse medo ficou ainda maior depois do pesadelo que eu tive com esse cachorro falando obscenidades comigo com uma voz demoníaca, não só obscenidades, mas também falando de todas as coisas ruins que eu já fiz nesses 16 anos de vida, e falando o que eu ainda iria fazer de ruim e as consequências dessas coisas. Acordei suado, mesmo com o ar-condicionado ligado.

Mesmo com o cachorro preso, eu sempre olho bem para todos os cantos da rua para me certificar de que o cachorro não vai aparecer quando eu saio de manhã para trabalhar. Desde que eu tive o pesadelo, o seu Tonho começou a olhar para mim com um sorriso lunático, parecia que ele tinha feito alguma coisa ruim pra mim, e depois do terceiro dia eu comecei mesmo a desconfiar que aquele velho tivesse feito uma macumba para eu ficar paranoico assim, mas me convenci que era só a minha cabeça mesmo que estava tentando achar algum culpado. Estava tudo indo normal, até agora.

Eu estava de novo tendo o pesadelo com o Hades e então acordei, mas mantive os olhos fechados. Senti alguma coisa pingando e mim e um cheiro horrível de mau hálito, e quando abri o olho para ver o que era aquilo, vi Hades na minha cama, olhando para mim e falando com aquela linda voz de demônio:

– Hora do passeio Jonathan.

Eu gritei e ele desapareceu como se fosse fumaça, agora eu estou aqui morrendo de medo desse bicho aparecer de novo e fazer comigo o que ele fez com o Gelsinho.

Continua
Capítulo Seguinte: Eu Mato Aquele Demônio

3 comentários:

  1. Nossa, muito louco sua história, gostei.

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  2. Muito bem escrito o seu conto. Rico em detalhes e bem dinâmico. O final me fez lembrar de Smile Dog/ jpg. Sinistro.

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    1. Muito obrigado, aprendi a colocar bastante detalhes nos romances policiais que eu leio, não sei se você vi, mas ele tem mais oito capítulos. Me desculpe pela demora em responder, é que eu sou meio relapso com esse blog.

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