Desde que eu me entendo por gente, sempre me falaram para
ficar longe daquele cachorro, eu não entendia o porquê, mas eu sentia medo do
cachorro toda vez que olhava para ele. O seu Tonho, o dono do cachorro e também
nosso vizinho, não gostava dos comentários feitos na vizinhança sobre o
cachorro, que de acordo com ele era “manso
e só atacava quando se sentia ameaçado”.
Mas não foi o que vi quando o Gelsinho foi atacado seis anos atrás.
Naquele dia nós estávamos na rua brincando de pic-esconde,
era a minha vez de contar, e o Gelsinho foi se esconder num beco bem escuro
para depois bater o “Salve Todos”. Terminei de contar e a Glória estava atrás
de mim e bateu o nome dela, então eu saí para procurar as outras crianças, bati
o nome de todas, e só faltava o Gelsinho. O Gelsinho se escondeu tão bem que
ficamos o procurando por bastante tempo.
Quando desistimos de procurar o Gelsinho, ele saiu correndo apavorado do
beco onde estava e eu só vi aquele demônio em forma de cachorro correndo atrás
dele, Gelsinho corria o quanto podia, mas como o joelho dele tava machucado,
ele corria de um jeito engraçado e o demônio (ou cachorro) já o estava
alcançando. O cachorro deu um salto e caiu em cima do garoto, e aquela cena era
pior que filme de terror, o cachorro parecia estar possuído, tinha os olhos
vermelhos e estava desfigurando Gelsinho. As crianças começaram a gritar
desesperadas e eu fui chamar o Caio, o irmão mais velho do Gelsinho, para ajuda-lo.
Quando eu voltei, o cachorro já tinha sido tirado de cima do Gelsinho e vários
adultos estavam em volta ligando para conseguir uma ambulância. Vi o seu Tonho
arrastando o cachorro todo machucado (acho que bateram no cachorro depois que o
tiraram de cima do Gelsinho), e dando chicotada no bicho falando em voz alta “EU JÁ FALEI PRA VOCÊ FICAR DENTRO DO
QUINTAL, HADES SEU CACHORRO MALDITO”, mas eu olhei melhor e vi que as
chicotadas acertavam o chão, e não o corpo do cachorro. A ambulância chegou e
Gelsinho foi levado para o hospital. Ele sobreviveu, mas teve que fazer várias
cirurgias plásticas para corrigir o estrago que o cachorro fez.
Desde esse dia, ninguém mais viu o Hades, pois seu Tonho o
prendeu no fundo do quintal e nunca mais o soltou. Seu Tonho escondeu o Hades
tão bem que quando vieram apreender o animal, não acharam e seu Tonho insistia
que o cachorro estava morto. Até nós da vizinhança acreditamos que o cachorro
realmente estava morto, mas depois de uns dias o bicho começou a latir e uivar
de um modo muito estranho que perturbava o sono da vizinhança. Eu próprio já
senti vontade de matar aquele cachorro com uma arma que meu pai guarda, mas eu
ainda tenho medo de olhar para aquele cachorro, e esse medo ficou ainda maior
depois do pesadelo que eu tive com esse cachorro falando obscenidades comigo
com uma voz demoníaca, não só obscenidades, mas também falando de todas as
coisas ruins que eu já fiz nesses 16 anos de vida, e falando o que eu ainda
iria fazer de ruim e as consequências dessas coisas. Acordei suado, mesmo com o
ar-condicionado ligado.
Mesmo com o cachorro preso, eu sempre olho bem para todos os cantos da rua para me certificar de que o cachorro não vai aparecer quando eu saio de manhã para trabalhar. Desde que eu tive o pesadelo, o seu Tonho começou a olhar para mim com um sorriso lunático, parecia que ele tinha feito alguma coisa ruim pra mim, e depois do terceiro dia eu comecei mesmo a desconfiar que aquele velho tivesse feito uma macumba para eu ficar paranoico assim, mas me convenci que era só a minha cabeça mesmo que estava tentando achar algum culpado. Estava tudo indo normal, até agora.
Eu estava de novo tendo o pesadelo com o Hades e então acordei, mas mantive os olhos fechados. Senti alguma coisa pingando e mim e um cheiro horrível de mau hálito, e quando abri o olho para ver o que era aquilo, vi Hades na minha cama, olhando para mim e falando com aquela linda voz de demônio:
– Hora do passeio Jonathan.
Eu gritei e ele desapareceu como se fosse fumaça, agora eu estou aqui morrendo de medo desse bicho aparecer de novo e fazer comigo o que ele fez com o Gelsinho.
Continua
Capítulo Seguinte: Eu Mato Aquele Demônio
Nossa, muito louco sua história, gostei.
ResponderExcluirMuito bem escrito o seu conto. Rico em detalhes e bem dinâmico. O final me fez lembrar de Smile Dog/ jpg. Sinistro.
ResponderExcluirMuito obrigado, aprendi a colocar bastante detalhes nos romances policiais que eu leio, não sei se você vi, mas ele tem mais oito capítulos. Me desculpe pela demora em responder, é que eu sou meio relapso com esse blog.
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